A morte e suas múltiplas faces

A proposta de elaboração da presente coletânea deu-se em meados de 2019, quando ninguém imaginava que uma pandemia estava prestes a começar. Infelizmente, a crise sanitária mundial iniciada nos finais daquele ano alçou o tema da morte a uma questão de debate coletivo, retirando-o da semipenumbra que, comodamente, lhe foi lançada após a Segunda Guerra Mundial. Silenciar sobre a morte é uma forma de contenção dos medos individuais e coletivos sobre o fim da vida, e, quando ela ocorre em grande número, a regra é reduzi-la a índices quantitativos.

No primeiro ano de reinado da Covid-19, a mídia empenhou-se em veicular diariamente o número de vítimas fatais, conferindo destaque apenas à biografia dos personagens de destaque público que haviam falecido. Em oposição solitária a esta tendência, a página virtual no Facebook “Memorial das vítimas do Coronavírus no Brasil” dedicou-se a esboçar elementos da trajetória de vidas que se extinguiram e que não contavam com projeção social, encerrando cada um dos obituários publicados com uma afirmação simples e ao mesmo tempo reveladora: “Não são apenas números!”. Somente em 2021 é que alguns jornais passaram a dedicar algum espaço para se reportar às mortes de indivíduos anônimos, assumindo – mesmo com reticências – que a morte é um evento corriqueiro e que ganha proporções amedrontadoras em momentos de crise sanitária.

O livro conta ao todo com 15 capítulos, divididos em duas partes: Parte I: “Leituras da morte na filosofia, na história e na arte”, com oito textos; e Parte II: “Leituras da morte no audiovisual e na comunicação”, com outros sete textos. A partir destes textos, esperamos que a coletânea contribua para a multiplicação das discussões sobre a morte e seu tema correlato, o medo do fim da vida. Isto porque, apesar de ambos os assuntos já terem disso consagrados pelos pesquisadores internacionais, no Brasil ainda não foram suficientemente contemplados como objetos de pesquisa. Falar sobre a morte no pretérito e no tempo presente é também um passo para se assumir a nossa própria humanidade e, consequentemente, da humanidade do outro.